Couro

Do artesanal para enzima: como a biotecnologia ajudou a limpar a produção de couro

As enzimas não só substituíram as fezes de animais. Elas também reduziram o uso de produtos químicos tóxicos na indústria do couro e diminuíram o tempo de processo. As águas residuais são mais limpas. As condições de trabalho melhoraram.

No passado, produzir o couro costumava ser um negócio que cheirava mal. Primeiro, era preciso embeber a pele do animal com uma mistura de urina e lima para remover os cabelos, a carne e a gordura. Depois disso, elas eram amaciadas com um processo de amassá-las com esterco de cães e pombos. Isso, geralmente era feito com um processo bastante artesanal, feitas por uma pessoa com os pés descalços, por duas ou três horas. A fabricação, nessa época, era considerada um comércio nocivo, realizada nos arredores das cidades.

Inserindo as enzimas

A indústria do couro se afastou dessas práticas tradicionais no início do século XX. O cientista Otto Röhm descobriu que uma enzima presente no esterco, chamada tripsina, a responsável por fazer o trabalho. Ele conseguiu extrair a enzima do pâncreas de porco e iniciou uma empresa para vendê-la. Isso revolucionou a indústria.

Desde então, outras enzimas foram gradualmente introduzidas na fabricação de couro. Hoje, a maioria das enzimas provêm de microrganismos, como bactérias e fungos. Empresas como Novozymes fermentam os microrganismos em grandes tanques de aço e colhem as enzimas que produzem.

Essas enzimas não só substituíram as fezes de animais. Elas também reduziram o uso de produtos químicos tóxicos na indústria do couro e diminuíram o tempo de processo. As águas residuais são mais limpas. As condições de trabalho melhoraram.

Menos produtos químicos, água, energia e CO2

Agora, um novo estudo mostra os benefícios da substituição de produtos químicos pela biotecnologia. A pesquisa, publicada no International Leather Maker, compara o processo químico convencional de imersão, calagem e destruição de das impurezas do exterior da pele com um novo sistema enzimático que solta as raízes do pelo e os remove.

As enzimas reduziram o uso de sulfeto de sódio, um produto químico tóxico usado para “queimar” o pelo das peles, em 60%. Elas ajudam a diminuir, em 1/4 o uso de água em imersão e a destruição de impurezas, e a toxicidade do efluente é bastante reduzida. O processo reduz o uso de energia e as emissões de gases de efeito estufa em quase 30%.

E uma vez que os pelos são removidos, ao invés de queimados com produtos químicos, eles podem ser usados ​​para produzir biogás. Quando olhamos para essas soluções mais avançadas, geradas a partir da própria natureza, conseguimos entender os benefícios para os fabricantes. Uma coisa é certa: eles preferem usar as enzimas, inodoras, ao encarar o mau cheiro do esterco.

O que é o curtimento?

O curtimento é o processo de tratamento de peles de animais para produzir couro. É, essencialmente, uma forma de mumificar o tecido para que ele não endureça.

É por meio desse processo que as peles cruas são encharcadas e o pelo removido, e produtos químicos adicionados para evitar que as peles se decomponham.

As águas residuais do processo podem estar contaminadas com substâncias químicas como a lima, sulfetos e ácidos, bem como o crómio, que pode representar riscos para o meio ambiente e para a saúde humana.

A indústria do couro percorreu um longo caminho na aplicação de novas tecnologias para reduzir a poluição. O tratamento de couro com enzimas reduz o tempo de processamento, o uso de água, energia e produtos químicos. Também melhora a qualidade do couro.

Cerca de 7 milhões de toneladas de peles bovinas são processadas todos os anos. A maioria do couro é usada para fazer sapatos, enquanto a segunda maior categoria é para produtos como luvas, bolsas e cintos. Vestuário de couro, estofados automáticos, mobiliário doméstico e outros usos diversos compõem o restante da demanda.

Essa matéria foi originalmente publicada em inglês. Clique aqui e confira.

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