01-11-2017

Biofuture Summit reuniu especialistas e promoveu um debate global sobre bioeconomia

O evento, iniciativa do governo brasileiro em parceria com o setor privado, criou uma agenda de diálogos e proposições e ajudou a firmar o país como uma liderança na busca por uma mudança econômica mundial.

São Paulo sediou, nos dias 24 e 25 de outubro, a primeira edição da Plataforma Biofuture Summit, uma iniciativa lançada e liderada pelo governo brasileiro durante a COP 22, em 2016.

O encontro, que contou com o apoio da Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial (ABBI), reuniu mais 300 delegados, provindos dos 28 países que integram a plataforma, e cumpriu com o objetivo de facilitar ações e estimular o diálogo e a colaboração global, voltando o pensando coletivo de membros do setor público e privado para a necessidade de implementação de políticas sustentáveis e de baixa emissão de carbono.

Estiveram no centro das discussões e preocupações dos participantes e apoiadores do evento o desenvolvimento da bioeconomia avançada e de soluções biotecnológicas eficientes para a reversão dos impactos das mudanças climáticas no planeta.

Na cerimônia de abertura, o Ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, ressaltou o grande desafio a ser superado pelas atuais potencias econômicas nos próximos anos: aumentar exponencialmente o investimento, a produção e o uso dos biocombustíveis e bioprodutos de baixo carbono como forma de frear o aquecimento global e cumprir com as metas assumidas durante o acordo de Paris, firmado em 2015 por 195 nações.

“A bioeconomia não é apenas capaz de mitigar as mudanças climáticas e promover alternativas verdes aos materiais fósseis, como também de gerar mais valor e produtividade para a agricultura, possibilitar o reaproveitamento de resíduos urbanos e rurais, criar demandas de empregos de alta qualificação, realizar o manejo sustentável da biomassa e estimular o desenvolvimento tecnológico e a segurança energética. Além disto, ela é uma fonte de negócios próspera, responsável por movimentar € 22 bilhões anualmente”, destacou Nunes.

A bioeconomia no Brasil:

O conceito de bioeconomia é definido como toda atividade que constrói uma economia circular, utilizando matérias-primas sustentáveis, empregando recursos biotecnológicos e gerando produtos de alto valor agregado que podem complementar e até substituir modelos econômicos insustentáveis e de alto impacto ambiental.

“Ou seja, a bioeconomia avançada baseia-se na aplicação de ciência e pesquisa no desenvolvimento de biotecnologias, cujos resultados criarão novos produtos e processos de base biológica para uso em alguma atividade econômica, principalmente no segmento industrial”, explicou o presidente executivo da ABBI, Bernardo Silva.

 

Segundo o palestrante e membro do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), Plínio Nastari, as principais iniciativas bioeconômicas desenvolvidas no Brasil estão centradas na produção de biocombustíveis:

“Ela é a energia que advém da biomassa e se apresenta através etanol, biogás, biometano, bioquerosene, ou seja, biocombustíveis. É um recurso muito interessante e que precisa se expandir, pois além de sustentável, gera desenvolvimento, novas oportunidades de trabalho, investimentos em pesquisas e tecnologia e melhor distribuição de renda” enfatizou.

Para Nastari, as soluções em bioenergia representam um formato que alia fornecimento e independência enérgica em escala global a um modelo de desenvolvimento econômico, alicerceado na geração de oportunidades e na sustentabilidade socioambiental.

Desta forma, no Brasil – país que é o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis – a bioeconomia traz perspectivas de crescimento para além dos biocombustíveis – não apenas do ponto de vista econômico:

“A bioeconomia tem uma amplitude de ofertas e externalidades para ajudar o Brasil a fixar uma cultura de desenvolvimento em sua agenda, criando novas oportunidades de empregos, negócios e tecnologias e de se consolidar como uma liderança ambiental para o restante do mundo”.

De acordo com diretor do Laboratório de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Gonçalo Pereira, o Brasil possui não apenas potencial para alcançar uma liderança global em bioeconomia, mas também uma vocação natural, uma vez que o país possui excelentes condições climáticas, solos férteis em abundancia, recursos hídricos, ciência, tecnologia e investimentos de três décadas em qualificação e capacitação humana para criar culturas bioeconômicas de alta qualidade.

“As soluções que desenvolvemos aqui melhoram as condições atmosféricas para o mundo inteiro. O Brasil tem o dever de mostrar que é possível realizar uma transição da economia fóssil para a renovável e que este é um excelente negócio global”, enfatizou Pereira.

Endossando esta concepção, o Presidente do Conselho Diretor da ABBI e Presidente da Novozymes Latin America, Emerson Vasconcelos, enfatizou o importante papel desempenhado pelo país e sua missão de encabeçar práticas ambientalmente comprometidas:

“Durante a COP 21, o Brasil foi um dos países que demonstrou maior interesse em adotar práticas sustentáveis e estabeleceu um dos target´s mais agressivos do encontro. Nós nos comprometemos a reduzir nossa emissão de carbono em 43% até 2030 e firmamos em nossa carta de intenção a utilização de biocombustíveis no transporte como forma de atingir a meta. O país tem ocupado uma posição muito importante neste aspecto, afinal o setor de transporte é responsável por 1/3 das emissões de carbono do mundo e, como fornecedor global de biocombustíveis, temos a capacidade de oferecer uma ótima alternativa ao problema”.

Contudo, a transição para uma bioeconomia avançada depende do aumento da produtividade e valor agregado do setor, apoio de políticas públicas e conscientização social, temas que pautaram os debates e proposições do Biofuture Summit, evento que consolidou o interesse brasileiro em liderar estas discussões.

“Recursos nós temos, indústrias interessadas para que isso aconteça também. Precisamos educar o mercado de consumo para a era da bioeconomia e cobrar do governo políticas aptas a dar o suporte e incentivo necessário a estas iniciativas. Neste aspecto, a plataforma Biofuture é um marco global, uma demonstração que setor público e privado podem e devem trabalhar e pensar juntos em busca de soluções eficientes e inovadoras”, apontou Vasconcelos.

Nesta mesma direção, Bernardo Silva sinalizou a urgência para a consolidação deste novo modelo industrial:

“Precisamos conscientizar empresas e pessoas dos benefícios que os produtos e processos renováveis oferecem para o meio ambiente, saúde humana e o bem-estar social. Conseguir incorporar a mentalidade de que, por exemplo, valor não é apenas o preço, mas principalmente os benefícios externos que um produto traz. Em segundo lugar, precisamos que o governo assuma a implementação de políticas públicas como meta prioritária para estimular a competitividade e a dimensão deste novo mercado e, assim, possibilitar que o país caminhe rumo a uma transição da economia fóssil para a renovável”.

Durante o Biofuture, alguns pontos ficaram claros: o Brasil pode e deve se posicionar não apenas como uma autoridade global em bioeconomia, mas também como uma forte liderança entre os países que constroem o caminho para um futuro sustentável. Mas para isto ocorrer é necessário a implementação de boas práticas, como valorização da propriedade intelectual e rápida concessão de patentes, modernização do atual marco regulatório, desenvolvimento em tecnologia e inovação, diminuição dos custos de investimentos no setor, e a viabilização dos projetos em escala comercial.

E o que ficou mais evidente e se firmou como essencial durante o encontro: Educação. “Precisamos preparar o olhar social para esse novo paradigma que já é uma realidade”, finalizou Silva.

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