Bioenergia

A eletrificação de veículos pode contribuir futuramente para descarbonização do setor de transportes. Mas qual é a solução mais emergencial?

biocombustíveis - veículos

Os biocombustíveis, além de atenderem as demandas mais urgentes de uma economia renovável, já estão à disposição e representam uma solução energética global

Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), o setor de transportes representa 20% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), dado este que aumenta, em média, 5,6% ao ano.

No Brasil – onde o setor é responsável por 14% da poluição total –  as emissões de GEE provenientes de carros e motos alcançaram um crescimento de 192% nas últimas duas décadas, de acordo com estudo realizado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). A degradação atmosférica, provocada pela queima de combustíveis fósseis, tem um custo anual de R$ 6,7 bilhões para o país.

Neste aspecto, fica evidente a urgência de se produzir soluções práticas e eficientes na redução dos impactos ambientais causados pelo uso de energias não renováveis no cotidiano mundial, principalmente, na locomoção. No caso brasileiro – país que, durante o Acordo de Paris, assumiu o compromisso de reduzir em 43% suas emissões de CO2 até 2030 – já existe uma alternativa energética viável e disponível: os biocombustíveis.

Os biocombustíveis protagonizaram – pela relevância de suas matrizes energéticas, por sua pegada de baixo carbono e pela dificuldade de investimentos e políticas públicas na área – os debates realizados durante a plataforma Biofuture Summit – uma iniciativa do governo brasileiro, que reuniu mais de 20 nações, entre os dias 24 e 25 de outubro em São Paulo, para pensar o futuro da bioeconomia global.

Uma importante questão apresentada no evento, e que demonstrou a necessidade de um olhar mais atento, é a atual proposta de substituição dos combustíveis fósseis por frotas de veículos elétricos: solução que – apesar de prestar sua contribuição para a descarbonização global –  possui um ciclo de vida limpo, mas, uma fonte energética ainda suja, que exige uma logística complexa e, consequentemente, um lento e custoso processo de implementação. Ou seja, é uma boa tecnologia para o futuro, no entanto, as condições climáticas atuais pedem respostas urgentes, capazes de gerar resultados imediatos.

As dificuldades dos carros elétricos

Inicialmente, as baterias utilizadas em veículos elétricos são produzidas a partir de matérias-primas não renováveis e escassas, como lítio e cobalto. Também calcula-se que cada quilowatt/hora de capacidade elétrica corresponde à emissão de 125 quilos de CO2. Uma vez que a vida útil dessas baterias dura em média quatro anos, seu descarte é uma segunda preocupação ambiental. E, um terceiro ponto é a problemática de infraestrutura, necessária para os pólos urbanos no tangente à produção, distribuição e abastecimento destes veículos, sem mencionar a logística de cobrança de energia para cada usuário.

Para o doutor em economia e membro do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), Plínio Nastari, uma frota elétrica não representa a melhor resposta – ainda que seja um caminho complementar – em geração de energia e economia sustentável, tendo em vista, principalmente, a capacidade dos recursos renováveis brasileiros, como o etanol, por exemplo.

“No Brasil, carros movidos a combustíveis fósseis emitem cerca de 129g de CO2 por quilômetro e os elétricos, 89g. Já os movidos a etanol, emitem 45g e podem chegar, a partir de tecnologias como o de 2° geração, a 20g por quilômetro. Biocombustíveis possuem maior eficiência energética e são mais sustentáveis”, explica.

Afirmação que se comprova com o estudo realizado pela Embrapa Agrobiologia, no qual se demonstrou que o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar é capaz de reduzir em até 73% as emissões de carbono na atmosfera.

De acordo com o presidente executivo da Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial (ABBI), Bernardo Silva, mesmo que a matriz energética dos veículos elétricos seja suja indiretamente, advinda de fontes fósseis, elas são um recurso importante para diminuir o impacto do setor de transporte, contudo, não são capazes de sanar o problema com a celeridade necessária.

“Tem que se considerar a infraestrutura para implementar isso, que vai gerar custos e dificuldades enormes em um país continental como o Brasil. Como substituir a frota atual por uma elétrica? Qual o tempo que isso vai levar? O ponto de urgência, que é uma das preocupações centrais, não é solucionado pelos carros elétricos. Essa tecnologia pode chegar para uma parcela da população mundial em 20 ou 30 anos, mas já será tarde demais”, adverte.

É um exercício bioeconômico a interconexão de diferentes áreas e tecnologias para gerar melhores respostas ambientais e, desta forma, uma frota elétrica é, indiscutivelmente, um poderoso aliado, mas que não pode ofuscar o protagonismo dos biocombustíveis na busca por mitigar dos efeitos dos gases de efeito estufa derivados do setor de transporte. Assim, o ideal é uma aliança entre os dois recursos, como é o caso de veículos híbridos equipados com células a combustão:

“Estes veículos possuem tecnologia super avançada, que possibilita o uso de biocombustíveis para carregar o motor elétrico. Assim, a energia necessária para carregar a célula de combustível viria do etanol e não de uma bateria que foi carregada a partir de uma matriz energética não renovável e fóssil, como através do carvão, por exemplo”, esclarece o executivo de desenvolvimento e negócios da Novozymes, Daniel Cardinali, para quem a eletrificação virá e terá uma importante contribuição na descarbonização do setor de transportes, mas como parte da solução e não solução integral

“A solução mais limpa e atualmente disponível é o biocombustível. Ele ocupa uma posição essencial nesta transição para um setor de transporte menos carbonizado”, finaliza Cardinali.

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