Bioenergia

A perspectiva de um produtor de etanol brasileiro

Confira a entrevista com Alfredo Scholl, membro do conselho de administração da indústria brasileira Usimat, uma empresa nacional, produtora de etanol, de estrutura familiar, com capital próprio e que iniciou na área de cana em 2006 e na de cereais em 2012

O empresário fala sobre como foi a transformação da usina para o formato flex, os investimentos, as dificuldades, as perspectivas positivas, além do cenário econômico e do potencial produtivo do Brasil. Ele também comentou como a biotecnologia, com a ajuda da Novozymes, contribui para uma produção mais eficiente.

A vantagem de se tornar uma indústria flex (produzindo etanol de cana e de milho)

Na verdade, a primeira vantagem seria um valor, uma margem de contribuição bruta dessa produção. Então, na verdade, nós tínhamos o custo da indústria anualizado, tínhamos o uso da energia elétrica pelo período anualizado, ou seja, fora do período de cana nós usávamos a energia elétrica para os armazéns e para a irrigação, mas havia uma sobra, e essa sobra, tanto de biomassa como de oportunidade na indústria foi o que nós buscamos no projeto inicial.

Escolhendo a tecnologia certa no início do projeto

Bom, esse foi um grande dilema, porque como nós tínhamos só 90 dias para ter retorno sobre esse investimento, no máximo 120 dias, então a nossa possibilidade de gasto era muito limitada. Dentro disso, na verdade, nós fizemos uma adaptação no processo da nossa indústria, relativamente barato, e buscamos efetivamente algo que nos pareceu sempre com potencial de criar um grande diferencial que eram as enzimas. E isso nos foi dito por algumas pessoas que a gente tinha contato, que isto era fundamental no processo. Então, que nós teríamos alguns processos, de dificuldade na destilaria e algumas áreas, mas essas nós achamos que eram contornáveis. Então, o nosso processo, o nosso foco inicial, foi trabalhar com uma empresa que pudesse nos fornecer enzimas com qualidade de transformar o amido em açúcar de uma forma boa e usar isso na melhor forma possível na sequência mesmo com esse período curto de retorno.

Desafios ao se estabelecer uma planta de etanol flex no Brasil

O principal, ou os principais desafios, na verdade, poderiam ser divididos em 3. Então, era o processo de adequar um processo de ter uma operacionalização com cereais compatível com o processo de cana. Ter um processo de transformação de amido em açúcares eficiente, o mais eficiente possível, e o desafio que depois se mostrou o maior de todos foi a utilização do DDG (Dried Distillers Grains, sigla em inglês para “Grãos Secos de Destilaria”). A secagem do DDG, esse processo todo ainda eu considero o ponto fraco, o ”calcanhar de Aquiles” das usinas Flex. Esse hoje me parece o tema que tem que ser mais cuidado no processo, esse continua sendo o grande desafio. A estrutura de secagem, a estrutura de recuperação, a estrutura de recuperação dos solúveis ainda é um desafio bastante grande para as usinas flex. Porque as usinas que trabalham só com cereais, elas na verdade têm uma taxa de retorno de 360 dias, ou 350, e nós temos apenas o intervalo depois da safra de cana-de-açúcar. Sendo uma estrutura com um período menor para buscar a sua margem de contribuição, para a amortização desses investimentos.

Os principais impulsionadores de valor na produção

A não despesa é uma receita, então, hoje, ter uma origem de matéria prima com bons custos, ter insumos com bons custos, dentre eles, o principal hoje é a biomassa, mas todos os outros custos dos insumos são importantes se administrado, eu acho que é a etapa inicial. Depois eu iria para a etapa de vendas, ou seja, de receitas, então a venda de etanol, a venda de DDG para mim são as grandes contribuições que têm. Sem dúvida hoje é o etanol em primeiro lugar e o DDG em segundo lugar. Hoje o DDG na nossa estrutura corresponde mais ou menos 8 a 20% da amortização de custo do processo.

O potencial do etanol de grãos no Brasil

Eu acho que o etanol de cereais no Brasil tem um potencial muito grande e ele tem efetivamente dois espaços para ocupar. Ser produzido como matéria prima exclusiva de projetos como os Americanos, com alta tecnologia e eficiência, e ser produzido em usinas flex, onde, na verdade, vai ter uma margem de contribuição para a usina muito boa na questão de redução de custos.

A Novozymes como parceiro na implementação do projeto

A adaptação de uma usina de etanol de cana para uma usina de etanol de cereais tem muitos pontos mortos no processo, com problemas de contaminação e esse processo todo foi fundamental com a Novozymes dando o suporte.

O desenvolvimento econômico com a implementação de uma planta de etanol

Eu conheço um pouco melhor a região do Mato Grosso, lá a Usimat tem feito os cálculos, hoje, por exemplo, a estrutura de impostos impacta em 11 reais e 80 centavos por cada saca de milho, considerando imposto federal, estadual e municipal. Hoje isso significa, na minha opinião, uma contribuição social fantástica. Nós temos os produtores hoje produzindo milho, esse milho sai para exportação em grande parte e esse milho ficando no Mato Grosso ele vai gerar emprego, impostos e também receita para os produtores e as indústrias. Seriam quatro segmentos extremamente beneficiados com essa viabilidade dos projetos de etanol de cereais. A viabilidade depende hoje, basicamente, de uma estrutura que não onere mais do que já está onerando em nível tributário, que tenha uma boa condição de formação de gente, uma boa adequação tecnológica e empresários competentes, e eu acho que o Brasil tem.

O crescimento esperado da produção de etanol no Brasil

Eu acredito que, como os americanos, e aí temos que aprender de novo com eles, nós precisamos acreditar que nós devemos ser um fornecedor mundial de biocombustível. Eu acho que o Brasil tem essa condição e hoje tem a possibilidade de ser fornecedor de biocombustível de cana e de cereais. O Brasil é uma equação ímpar nisso e acho que a combinação ideal de um projeto é, na verdade, produzir açúcar, produzir etanol, produzir DDG, produzir energia elétrica e produzir óleo. Eu acho que esse é um projeto completo e, na minha conta, é o que tem mais possibilidade de superar as próximas crises que, eventualmente, o segmento tenha que passar. Na minha opinião, quem tiver uma boa estrutura e custo e tiver uma boa origem de matéria prima, com custos compatíveis e uma boa comercialização, ele tem garantido a sua sobrevida por um longo tempo.

Confira o vídeo com a entrevista completa: A perspectiva de um produtor de etanol brasileiro

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