Bioenergia

O status dos biocombustíveis na América Latina

Confira a entrevista de William Yassumoto, head of commercial biorefining da Novozymes Latin América, sobre o cenário dos biocombustíveis na Argentina, Brasil e México para os próximos 3 a 5 anos

Nos próximos 30 anos teremos um aumento acelerado da frota veicular, com uma estimativa de 3 bilhões de veículos circulando no mundo. A frota na América Latina deverá crescer 5 vezes, e é nesse ambiente que a indústria de biocombustíveis exerce um papel crucial no atendimento à demanda crescente de transporte, de forma sustentável e econômica. Dentre todos os biocombustíveis, a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, inclusive do bagaço da cana, o chamado etanol celulósico, é predominante no Brasil.

A produção de etanol de cana também se estende para vários países na América Latina, como Argentina, Colômbia e Paraguai. Nos últimos anos, a produção de etanol a partir de grãos, especialmente do milho, tem crescido de forma exponencial, sendo um importante complemento a produção de etanol de cana-de-açúcar.

No México, o governo aprovou o uso de 5.8% de etanol na mescla com a gasolina, e isso abre uma nova oportunidade para o segmento naquele país. O aumento da demanda de combustíveis, os incentivos governamentais às energias renováveis, pelo compromisso com o acordo de Paris (a COP21), e a necessidade de uma matriz energética mais diversificada, são alguns dos principais motivos para o contínuo crescimento dessa indústria.

Por que a Novozymes está tão interessada neste mercado?

A Novozymes é líder global no fornecimento de enzimas para a indústria de biocombustíveis, incluindo a produção baseada em cana-de-açúcar, celulose e grãos. Estamos muito entusiasmados com o potencial na região, e seguimos este mercado de perto. Anualmente realizamos grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento para fornecer as melhores soluções da indústria. Nossas atividades vão muito além da biotecnologia, pois participamos e apoiamos ativamente ações de desenvolvimento de políticas públicas, comunicação e promoção dos biocombustíveis. Somos os organizadores do principal evento do etanol de milho na América Latina, a conferência conhecida como TECO, hoje com suas edições na Argentina e no Brasil, e que traz toda a cadeia de valor para debater perspectivas tecnológicas, econômicas e políticas da indústria.

As expectativas de crescimento dos biocombustíveis na Argentina nos próximos 3-5 anos

Bem, a Argentina segue em ritmo acelerado no processo de recuperação econômica, e isso se reflete no aumento do consumo de combustíveis no país. Esse ano esse aumento deverá ser de aproximadamente 6%. Estimamos que esse crescimento deverá continuar nos próximos anos.

As iniciativas de políticas públicas na Argentina

O compromisso do governo argentino à política de energias renováveis é um importante fator para esse crescimento sustentável. Nossa expectativa é que novas políticas que incentivem o aumento da produção de etanol, seja de cana-de-açúcar, seja de grãos, deverão ser implementadas nos próximos anos e, por isso, deveremos continuar investindo nessa indústria. Algumas alternativas sendo estudadas pelo governo são o aumento da mistura atual que é de 12%, ou mesmo a implantação do sistema de etanol hidratado, similar ao que é atualmente utilizado no Brasil. Com terras abundantes, tecnologias agrícolas muito avançadas, estabilidade econômica e política, a Argentina é, e continuará sendo, um agente global muito importante no processo de descarbonização do setor de transporte.

As expectativas de crescimento dos biocombustíveis no Brasil nos próximos 3-5 anos

Todos sabemos que o Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, cuja produção esse ano deverá ser de aproximadamente 25 bilhões de litros, em sua maioria essa produção vem de cana-de-açúcar. Nesse contexto, nossas soluções enzimáticas têm se estendido na produção de etanol de cana-de-açúcar, a partir do lançamento da 1ª enzima antiespumante do mercado, a Fermax. Vemos também com muito entusiasmo os avanços da produção de etanol de biomassa, conhecido como etanol celulósico, onde nossa liderança se faz presente através das melhores enzimas do mercado para esse segmento. Estimamos que, no Brasil, o déficit de combustíveis deverá chegar aos 15 bilhões nos próximos anos, incentivado pelo aumento rápido da frita veicular através das melhorias das condições econômicas do país. Com isso, outras alternativas complementares ao etanol de cana-de-açúcar como o etanol de milho tem se desenvolvido de forma muito rápida esse ano. A produção de etanol de milho somente em 2017 deverá ultrapassar os 300 milhões de litros, e novas plantas deverão ser construídas nos próximos anos no país.

As iniciativas de políticas públicas no Brasil

RenovaBio

Os biocombustíveis possuem um papel fundamental na matriz energética brasileira e são responsáveis por tornar a oferta de energia do Brasil cada vez mais sustentável, competitiva e segura. Hoje, o Brasil substitui 36$ da gasolina consumida no país por etanol. As políticas de incentivo por parte do governo garantem o contínuo desenvolvimento dos biocombustíveis no Brasil. O programa RenovaBio, aprovado recentemente, deverá regular o mercado do etanol, começando com a integração do setor agroindustrial com as políticas energéticas, ambientais e de produção. O RenovaBio incentiva o aumento da eficiência energética na produção de biocombustíveis, através de metas de redução de emissões de carbono e com isso, o RenovaBio tem efeito direto no atingimento das metas assumidas pelo Brasil no acordo do clima de Paris, a COP21. Outra consequência importante do RenovaBio é na melhor estrutura de precificação do etanol, trazendo assim maior previsibilidade e credibilidade ao setor. Preço competitivo do milho, crédito abundante e com taxas atrativas, e estabilidade econômica e política são os principais fatores que contribuirão com o desenvolvimento do etanol de milho no país.

Os principais desafios no Brasil

Dentre os grandes desafios está a necessidade de uma estabilidade política e, com ela, a volta de um crescimento econômico mais consistente e mais sustentável. Isso permitirá o retorno de investimentos tanto domésticos quanto estrangeiros, que necessitam de um ambiente macroeconômico mais estável. Esperamos que o apoio ao setor continue, na forma de incentivos fiscais, juros atrativos e o apoio das instituições de fomento como o BNDES, o FINEP e as diversas superintendências regionais. Assim como outros países, o Brasil tem terras abundantes, alta tecnologia de produção, matérias primas em abundância e um enorme mercado de consumo de energia renovável. Estamos muito confiantes que o Brasil atingirá as metas de descarbonização acordadas em Paris.

As expectativas de crescimento dos biocombustíveis no México nos próximos 3-5 anos

Historicamente, o uso de combustíveis fósseis tem sido predominante no mercado mexicano. Mais recentemente, com o compromisso para o Acordo de Paris, onde se comprometeu a reduzir em até 25% as emissões de gases de efeito estufa no país até 2030, o incentivo ao uso de biocombustíveis foi ampliado, sendo que a primeira iniciativa do governo mexicano foi a aprovação, no ano passado (em 2016), da mistura do etanol com a gasolina em 5.8% em todas as províncias mexicanas, com exceção da cidade do México, e das províncias de Monterrey e Guadalajara. Com isso, se abriu um mercado de 2 bilhões de litros anuais no país.

As iniciativas de políticas públicas no México

Inicialmente esse consumo deverá ser implementado a partir de importações. Ao mesmo tempo, prevemos o desenvolvimento de uma indústria local que deverá criar uma autossuficiência energética para o país nos próximos anos. É necessário, portanto, construir uma base industrial sólida e toda a cadeia de valor para que essa autossuficiência seja alcançada. Estamos seguros que isso irá acontecer, permitindo ao México um protagonismo dentro do cenário global com suas novas políticas de incentivo às energias renováveis.

Confira o vídeo com a entrevista completa aqui: Oportunidades e desafios dos biocombustíveis

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