26-04-2017

Enzimas na produção de aditivos à base leveduras para alimentação animal

Enzimas empregadas no processamento de aditivos à base de leveduras possibilitam a redução de uso de antibióticos na alimentação animal

A produção de carne livre de antibióticos está ganhando cada vez mais espaço no mercado internacional, e uma forte tendência é de que toda a cadeia produtiva se adapte a essa exigência, não só pelos ganhos em qualidade, mas para atender a uma crescente preocupação dos consumidores que buscam produtos com características mais saudáveis.

 Nos Estados Unidos, as vendas de carnes livres de antibióticos já correspondem a 5% de todo o consumo e a expectativa é que esses números alcancem 23% em pouco tempo. Uma realidade que começa a mudar o posicionamento de grandes marcas, como o McDonald’s, que em agosto de 2016 anunciou o início da comercialização de hambúrgueres de frango feitos somente com matéria-prima sem o uso de antibióticos e que ganhou destaque nas principais páginas dos jornais do mundo inteiro.

Seria essa apenas uma estratégia de marketing? O professor Dr. Stephen Collet, da Universidade da Georgia (EUA), um dos maiores nomes da pesquisa científica dessa área, avalia que não. Segundo ele, essa é uma demanda crescente dos consumidores que buscam nesse tipo de produto uma alimentação mais saudável e equilibrada, bem como aumento do bem-estar dos animais, benefícios justificados pelo aumento de digestibilidade e aproveitamento de nutrientes. Durante a International Production & Processing Expo (IPPE), o especialista falou sobre a importância da implementação de programas de alimentação animal livres de antibióticos, em todo mundo, focados na gestão da saúde digestiva e na maximização da qualidade de vida dos animais.

Segundo Collet, essa é uma proposta que está motivando uma incrível mudança de pensamento no setor, que começa a incentivar novos estudos, pesquisas e tecnologias desenvolvidas para uma produção que auxilie os produtores e atenda aos desejos dos consumidores. O reflexo disso já desponta no Brasil, como no estudo desenvolvido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em parceria com a Universidade de Guelph, no Canadá, liderado pelo pesquisador Dr. Márcio Costa, que avalia a comercialização de carnes de aves, suínos e bovinos, livres de antibióticos como valor agregado em supermercados. Em sua pesquisa, o destaque de que, ainda hoje, 70% dos antibióticos produzidos no mundo são voltados para os animais, e mesmo sendo responsáveis por uma revolução na área da saúde, ao tratar as infecções, o uso excessivo causa resistência às bactérias e altera a flora intestinal.

Uso de antibióticos é questão de saúde pública

Além dos esforços do mercado para atender aos desejos dos consumidores, a redução na utilização de antibióticos na alimentação animal é também uma preocupação global, que ganhou força na Assembleia das Nações Unidas (ONU), em setembro passado, quando grandes empresas do setor de proteína animal divulgaram uma carta aberta na qual expressaram apoio ao esforço e união de forças para combater a resistência aos antibióticos, além de se comprometerem a buscar alternativas para reduzir a necessidade de utilização desses medicamentos.

Solução brasileira: a utilização de enzimas para produção de derivados de levedura

Umas das possibilidades disponíveis no mercado brasileiro é a utilização da biotecnologia para produção de aditivos à base de levedura que, posteriormente, são utilizados na nutrição de animais, permitindo a redução do uso de antibióticos. E não é novidade que o Brasil se destaca nesse mercado.

A utilização de aditivos à base de leveduras vem ganhando espaço nos últimos 20 anos, especialmente os que passam por processamento para ter maior disponibilidade de seus componentes nutricionais e funcionais. O uso de enzimas durante o processo, permite uma hidrólise de componentes específicos resultando em um produto final de maior qualidade e funcionalidade, sendo uma solução sustentável, eficiente e que economicamente atende aos desafios regulatórios e às restrições promovidas pelos consumidores ao uso de antibióticos.

O creme de levedura Saccharomyces cerevisiae, que é utilizado na fermentação da cana-de-açúcar para obtenção de etanol, é separado ao final da fermentação e lavagem, e pode ser processado e utilizado de diversas maneiras. Uma destas maneiras é a autólise da célula (ruptura da membrana celular), onde há o extravasamento do conteúdo intracelular, e após este processo, algumas enzimas específicas são inseridas para a hidrólise (“quebra”) de cadeias de proteína e também do RNA em nucleotídeos e nucleosídeos (que formam as bases nitrogenadas da estrutura). Este produto final é altamente digestível, pois possuí, além destes, aminoácidos, peptídeos e polipeptídeos de cadeia curta e glutamina, sendo altamente recomendável para nutrição animal. Também há presença de mananoligossacarídeos (MOS, que é uma ferramenta efetiva na prevenção de diarreia causada pela contaminação de Salmonella e E. coli.) e altos níveis de β-glucanas (consideradas imunomoduladoras de resposta do sistema imune).

As enzimas são proteínas, catalisadoras de reações enzimáticas, que quando aplicadas no processamento de leveduras, resultam em produtos de maior disponibilidade e digestibilidade utilizados como ingredientes fundamentais para nutrição animal. Neste contexto, a aplicação de enzimas vai de encontro à busca pela redução do uso de antibióticos na criação de animais para abate e processamento de carnes visando geração de produtos mais saudáveis.

Uma empresa referência no segmento de soluções enzimáticas para indústrias de diversos setores é a Novozymes, multinacional dinamarquesa que tem como foco a área de biologia e sustentabilidade e que prima pela manutenção do meio ambiente por meio da integração de práticas sustentáveis. No Brasil, a empresa tem sedes industriais em Araucária e Quatro Barras (Paraná) e escritórios em São Paulo e Brasília. A empresa também está entre as 100 empresas mais inovadoras no mundo no ranking da Forbes.

Estabelecer um elo entre a boa qualidade, o valor nutricional e a segurança dos alimentos é uma tarefa que tem exigido muitas pesquisas por parte das indústrias para assegurar a saúde pública. A preocupação com a qualidade dos ingredientes e dos aditivos utilizados na ração animal é uma tendência global e irreversível, considerando que o consumidor final está se tornando mais ciente da relação entre “nutrição e saúde”.

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